16° Festival Évora Classica
OS ORIENTAIS
Naturalmente subversivo por entre os seus e em revolta contra todos os usos tradicionais, o etnógrafo mostra-se respeitoso até ao conservadorismo, sempre que a sociedade em questão aparenta ser diferente da sua".
Esta reflexão de Claude Lévi-Strauss, de quem festejamos este ano o centenário, está longe de ser desprovida de sentido. Depois de ter posto em questão uma sociedade julgada falsa nas suas convenções sociais, morais e religiosas, apareceu este fascínio por sociedades que tentam conservar uma herança oral e identitária face à razia da mundialização.
Antagonismo e esquizofrenia habitam o apaixonado pelo Oriente, tão fascinado pelas melopeias enrugadas de uma sanfona do deserto, como pelas proezas do som do I Phone.
Apesar de tudo isto, não nos iludamos, o mundo tradicional marginalizado pela nossa ideolatria consumista alimenta, antes de mais, do deserto do Rajastão às margens do mediterrâneo, o fabrico de imagens da indústria turística e das agências de viagens.
Os « Orientais de Évora », sempre à procura de outros mundos, propõem uma outra maneira de ouvir e apreender o mundo da música.
A música para muitas culturas é mais do que um divertimento e tem dentro dela as raízes profundas da emoção e da espiritualidade, do rito e do quotidiano.
As músicas que apresentamos no nosso Festival são bastante festivas e joviais mas são também um testemunho das grandes civilizações orais, da diversidade das expressões artísticas humanas e da verdade de um modo de vida onde a natureza ainda tem sentido.
Assim, o Festival Évora Clássica é um dos raros festivais em Portugal a oferecer espectáculos que, como esta cidade, pertencem ao património da humanidade, expressões artísticas que, em breve, terão talvez completamente desaparecido.
Este ano, para lá do seu ambiente caloroso e tradicional, o Festival convidará o público para uma viagem, que vai do coração da Ásia até ao Mediterrâneo.
Prazer para os olhos e para os ouvidos, refinamento de um gesto coreográfico ou de uma voz cristalina ou enrugada como o sopro do vento, os cantos e músicas de tradição, simultaneamente terrestres e celestes, transportam o corpo e a alma, quer sejam mediterrânicos ou orientais.

